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CTRL+ALT+MOFO — perfil de filtros · FFV × Coletivo Mofo
CTRL+ALT+MOFO
FFV  ×  Coletivo Mofo  ·  Edição limitada ALT  ·  Oito filtros, oito artistas

CTRL+ALT+MOFO é uma colaboração entre a FFV e o Coletivo Mofo. Esta edição limitada da ALT sai de fábrica com oito filtros, cada um assinado por um artista do coletivo. A ideia partiu de uma constatação simples: quem fotografa há tempo suficiente acaba com um jeito próprio de tratar a cor. Um puxa tudo para o quente. Outro não abre mão do grão. Outro passa anos trabalhando em cima de um azul só. Normalmente isso aparece depois do disparo, na revelação, no scanner, na escolha do rolo. Na ALT aparece antes, dentro da câmera, como quem carrega um filme.

Os oito perfis não foram feitos para conversar entre si. Cada artista trabalhou a partir da própria linguagem, e o conjunto ficou desigual de propósito: tem redscale levado ao extremo ao lado de um preto e branco lavado, cianotipia ao lado de distorção cromática alienígena, homenagem a Moriyama ao lado de uma cidade inglesa coberta de rosa. Cada verbete conta de onde veio o filtro e traz um filme 35mm de referência, uma aproximação tirada do perfil de cor de cada um.

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Fotografia feita com o filtro X-RUBRO
F1 — Filtro

X-Rubro

Matheus Marreco

O nome promete vermelho e a imagem entrega verde. A camada esverdeada é densa, saturada, de grão acentuado, e cobre a cena inteira antes que o olho tenha tempo de reclamar. Só que ela não alcança tudo. Um quadro de bicicleta, um par de tênis, uma placa qualquer no meio da rua continuam vermelhos e, por serem os únicos, ficam violentos. Matheus construiu o filtro a partir de uma estética cinematográfica, onde a cor é dirigida antes de ser registrada. Quem fotografa com X-RUBRO começa a procurar vermelho na rua antes mesmo de levantar a câmera.

Aproximação em filmeCross processing de slide, Fuji Provia 100F ou Kodak Elite Chrome revelados em C-41. Dominante verde-amarelada dura, saturação exagerada, altas luzes que estouram sem gradiente e grão bem mais visível do que o processo correto entregaria. O vermelho é justamente a cor que o cross process preserva com mais violência.
Aproximação em filmeCross processing de slide, Fuji Provia 100F ou Kodak Elite Chrome revelados em C-41. O vermelho é a cor que o cross process preserva com mais violência.
Fotografia feita com o filtro DELIRIO
F2 — Filtro

Delirio

Bia Braz

A folhagem vira azul. A flor rosa acende em verde neon. O céu, o asfalto e a parede da obra escorregam todos para o magenta. DELIRIO saiu dos experimentos da Bia com distorção cromática, e o que ele faz é bem específico: mantém a forma intacta e troca o espectro de lugar. A cena continua sendo aquela esquina, aquele canteiro, aquele caminho de pedra portuguesa. Só a cor foi substituída por outra, vinda de um lugar que ninguém sabe dizer qual é. Saturado, frio, grão médio, uma natureza fotografada como se fosse de outro planeta.

Aproximação em filmeLomochrome Turquoise XR 100-400, que faz as mesmas duas trocas: verde da vegetação para azul, vermelho e magenta para verde. Na linhagem, o Lomochrome Purple e antes dele o Kodak Aerochrome, infravermelho falso-cor de origem militar que inaugurou a ideia de vegetação em cor impossível.
Aproximação em filmeLomochrome Turquoise XR 100-400, que faz as mesmas duas trocas: verde da vegetação para azul, vermelho e magenta para verde.
Fotografia feita com o filtro AZULEJA
F3 — Filtro

Azuleja

Yuji Kodato

Azul suave, contraste baixo, grão quase nenhum. AZULEJA não sufoca as outras cores: o verde e o vermelho continuam ali, atravessando a camada fria sem se apagar. Yuji construiu o filtro numa jornada ao mar, num período em que o reencontro com a natureza e o reencontro com as histórias de família aconteciam ao mesmo tempo, e o azul carrega essa dupla temporalidade. Fotografar com AZULEJA é fotografar o presente já em estado de lembrança.

Aproximação em filmeFujicolor Pro 400H. Grão finíssimo, contraste baixo, dominante fria com ciano nas sombras e saturação contida, que preserva verdes e vermelhos sem estourá-los. Descontinuado em 2021, o que talvez caia bem: um filme que já é ele próprio uma coisa lembrada. Ainda em produção, o CineStill 50D chega perto, com um pouco mais de contraste.
Aproximação em filmeFujicolor Pro 400H, grão finíssimo e dominante fria, descontinuado em 2021. Ainda em produção, o CineStill 50D chega perto.
Fotografia feita com o filtro CIANO
F4 — Filtro

Ciano

Cecília

Sal de ferro, sol, água corrente, azul da Prússia. A cianotipia é um dos processos mais antigos da fotografia e um dos mais teimosos, e foi com ela que Anna Atkins imprimiu, em 1843, o herbário de algas que se considera o primeiro livro fotográfico. Cecília trabalha nesse azul na bancada, com bandeja e exposição lenta ao sol. CIANO traz o processo para dentro da câmera: a imagem inteira puxada para o azul, contraste duro, grão bem marcado, mais mancha química do que registro. O tempo de espera some, o azul continua.

ReferênciaAs próprias impressões em cianotipia de Cecília. Em filme, o caminho mais fiel ao processo é um negativo de grão graúdo e contraste alto, tipo Ilford HP5 Plus empurrado para 1600, que é exatamente o que se ampliaria para virar matriz na bancada.
ReferênciaAs próprias impressões em cianotipia de Cecília. Em filme, um negativo duro tipo Ilford HP5 Plus empurrado para 1600.
Fotografia feita com o filtro MEIODIA
F5 — Filtro

Meiodia

João Bonfim

Preto e branco lavado, contraste baixo, cinzas longos. MEIODIA se recusa a fechar as sombras e mantém informação onde normalmente haveria só massa preta. Grão médio, nenhuma pressa em dramatizar. João gestou o filtro em Belo Horizonte e o testou no São João de Aracaju e em idas ao mar, ou seja, nos dois lugares onde a cor costuma gritar mais alto. Sem ela, sobram as bandeirinhas em cinza, a fogueira reduzida a textura, a espuma como mais um branco entre outros. A festa continua ali, só que rebaixada, num tom de quem já viu aquilo antes.

Aproximação em filmeIlford XP2 Super 400, o preto e branco de maior latitude do mercado, cromogênico, revelado em C-41. Segura sombra em luz dura como nenhum outro, com curva suave e grão médio bem distribuído. Versão artesanal: Kodak Tri-X 400 exposto a 200 e subrevelado, o pull clássico para abrir sombra e derrubar contraste.
Aproximação em filmeIlford XP2 Super 400, o p&b de maior latitude do mercado. Versão artesanal: Tri-X 400 exposto a 200 e subrevelado.
Fotografia feita com o filtro PROVOKE
F6 — Filtro

Provoke

Carlão

A revista Provoke durou três números, entre 1968 e 1969, e deixou uma marca desproporcional ao tamanho. O programa era fácil de enunciar e difícil de sustentar: a imagem podia ser tremida, desfocada, granulada, e ainda assim dizer o que a fotografia bem comportada não alcançava. Daido Moriyama entrou a partir do segundo número e levou aquilo adiante por décadas, fotografando cachorro na rua e luz de neon com o mesmo grão graúdo. PROVOKE é homenagem a esse gesto. Contraste duro, sombras que fecham em massa sem informação, grão que vem para a frente e disputa espaço com o assunto.

Aproximação em filmeKodak Tri-X 400 empurrado para 1600, literalmente o filme de Moriyama e de boa parte do círculo da Provoke. Dois stops acima, entrega grão graúdo, curva violenta, sombras em preto puro e altas luzes sem gradiente. Alternativas: Fuji Acros 100 empurrado para 400 ou Fomapan 400 a 1600, que quebra mais rápido e aqui isso é vantagem.
Aproximação em filmeKodak Tri-X 400 empurrado para 1600, o filme de Moriyama. Alternativas: Acros 100 a 400 ou Fomapan 400 a 1600.
Fotografia feita com o filtro XEFIUD
F7 — Filtro

Xefiud

Junia Mortimer

XEFIUD é Sheffield escrito como se ouve, o nome de uma cidade inglesa passando por uma boca brasileira e saindo de outro jeito. O filtro faz com a luz o que o nome faz com a palavra. Uma camada rosada cobre a imagem inteira, de contraste baixo e grão quase inexistente, sem eliminar o que está embaixo: o azul continua azul, o verde continua verde, e mesmo assim nada escapa do véu. Os pretos não fecham. As luzes estouram com halo em vez de borda. Junia fez o filtro durante uma temporada na cidade, e o rosa não estava lá. Foi posto por cima de um lugar que costuma ser descrito pelo cinza.

Aproximação em filmeC-41 vencido, um Kodak Gold 200 ou Fuji Superia 400 guardado fora da geladeira por muitos anos. A degradação da camada ciano produz o magenta uniforme por cima da cena sem apagar as outras cores, e a perda de densidade levanta os pretos. Versão deliberada: Portra 400 superexposta com pré-velamento leve.
Aproximação em filmeC-41 vencido, guardado fora da geladeira por anos. Versão deliberada: Portra 400 superexposta com pré-velamento leve.
Fotografia feita com o filtro BRASA
F8 — Filtro

Brasa

Rafael Rasone

Redscale é uma gambiarra que virou método: abrir o cartucho, virar o filme do avesso, rebobinar, e fazer a luz atravessar a base laranja antes de chegar à emulsão. O mundo sai com uma temperatura que não é dele. Rafael levou o procedimento ao extremo. Em vez do âmbar morno das primeiras camadas, BRASA empurra a cena para o rubro, um calor que come as sombras e queima o que era azul. Grão médio, espírito faça-você-mesmo, mas aqui sem fita crepe nem sala escura.

Aproximação em filmeLomography Redscale XR 50-200 exposto a 200, onde a latitude funciona como controle de intensidade: a 50 abre para amarelo e laranja, a 200 fecha em vermelho profundo com sombras densas. Receita caseira: Kodak Gold 200 rebobinado ao avesso.
Aproximação em filmeLomography Redscale XR 50-200 exposto a 200. Receita caseira: Kodak Gold 200 rebobinado ao avesso.